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Entrevista com o artista plástico Fernando Carpaneda

Fernando Carpaneda é um artista plástico que retrata garotos de programa, punks e marginais. A técnica dele é argila e ele sempre usa também algo que tenha conexão com a pessoa retratada – de pontas de cigarros a latas de cervejas. Ele acredita que o gay brasileiro não é respeitado pela sociedade por culpa da TV, que só explora o lado caricato dessa orientação sexual. Por isso, suas esculturas chocam  as pessoas ao mostrar homens fortes amando outros homens, pois o estereótipo que elas conhecem não é aquele – e sim o da bicha afeminada e fofoqueira.

Muitas de suas aventuras (e desventuras) estão narradas em seu livro independente “O Anjo de Butes – Uma Vida de Tintas, Sexo e Rock N Roll”, que conta sua vida desde a adolescência até uma de suas exposições mais especiais em Nova York, no CBGB. A obra não é muito fácil de achar, mas também não é impossível – há na web e, aqui em Belo Horizonte, eu comprei na Quina Galeria. O livro tem 240 páginas e é ilustrado com 26 reproduções de obras. As páginas narram, além de viagens e descobertas artísticas, sua vida sexual – com direito a um intrigante triângulo amoroso envolvendo uma mulher chamada Cassandra e o personagem que dá título ao livro. Depois de ler tudo, li também outras entrevistas e fiquei fascinado com a história dos bastidores das obras do cara e curioso com outras coisas. E, ao invés de apenas mandar algumas das minhas dúvidas por e-mail, resolvi fazer uma entrevista para o blog.

Suas esculturas retratam homens nus e até algumas cenas de sexo. É excitante trabalhar nas obras?
Sim! Trabalhar com arte é sempre excitante. Criar novas esculturas é sempre excitante. Mas quando você trabalha com pessoas nuas o tempo todo, a excitação sexual acaba. Tudo passa a ser profissional. Uma porta e um homem pra mim são a mesma coisa – todos têm maçaneta. Não é mais novidade. É artístico.

No livro você descreve como estava a cena punk de Brasília na época que morava lá. Tem ideia de como é hoje?
Sim! Tenho contato com a nova geração punk de Brasília e com alguns punks dos anos 80 que ainda vivem por lá. Algumas poucas coisas mudaram nesse período. Sei que os Skinheads de Brasília continuam espancando e matando pessoas, principalmente gente pobre que não tem como se defender desse tipo de ataque. E a polícia não faz nada! Às vezes, recebo e-mails de pessoas que foram agredidas por eles em shows de rock ou agredidas por serem gays – uma dessas pessoas agredidas teve o rosto cortado e o nariz quebrado por esses marginais. A polícia não faz nada, o governo não toma nenhuma atitude. Acho um absurdo a capital de um país deixar esse tipo de coisa acontecer.

Mas tem alguma coisa que você acha ruim ter deixado para trás?
Acho que o livro foi um bom registro sobre uma época e acho necessário que pessoas conheçam uma outra realidade dentro da sociedade em que vivemos. Não sinto falta de nada que deixei pra trás. Penso que sempre devemos relembrar coisas boas do passado, mas nunca ficar preso a ele.

No livro você fala sobre a vida noturna de vários lugares e uma coisa que me chamou atenção foi aquele clube onde tinha skinhead fazendo orgia com outros homens – pois existe essa ideia de que todo homofóbico é um gay enrustido. Como você vê isso?
Sim, todo homofóbico é um gay enrustido! A maioria dos meus amigos são héteros, casados e com filhos. Quando você sabe o que quer, não tem porque se sentir agredido ou incomodado com a sexualidade de ninguém. Eu mesmo nunca fiquei ofendido de me confundirem com hétero. Nunca tive problemas em dizer que sou gay e não curto garotas. Existe coisa mais gay do que viver em academias de musculação cercado de macho suado por todos os lados, olhando no espelho e comparando o tamanho das costas e braços uns dos outros? Skinheads se depilam, usam calcas jeans aperdadinhas realçando a bunda e tatuam a foto da bicha do Hitler no peito! Hitler era uma bicha louca: criou um exército de bofes lindos e perfeitos só pra ela. Todos altos, malhados e de olhos claros. A história não deixa muito claro sobre o tamanho da “arma” nazista, mas com certeza a bicha do Hitler deu uma boa chupada em todo seu exército de bofes. Isso enquanto ela ficava pintando aquarelas e ouvindo musica clássica em volume alto… Dizem que era para abafar os gritos dos judeus, mas creio que era para abafar os gritos dela mesma enquanto os soldados alemães enfiavam a arma deles na bunda dela.

No livro, você diz que o sucesso como artista deixou complicado saber quem era amigo e quem se aproximava por interesse. Hoje você sabe diferenciar?
Sim! Hoje consigo saber quem é quem.

E o Anjo de Butes, alguma notícia dele, ele sabe sobre o livro…?
Sim! Ele sabe sobre o livro. Ele é meu amigo no Facebook e se orgulha do passado dele. Aliás, ele me pediu a cópia do livro dele autografada (risos)! Ele continua casado e somos amigos agora, mas ele não quer que eu fique falando mais do que já foi dito no livro.

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Uma resposta

  1. […] A reportagem coversa com surfistas gays e conta com a opinião de psicanalistas, políticos e ativistas na defesa da criminalização da homofobia. Nas páginas negras (parte de entrevistas da publicação), Zé Celso, o criador do Teatro Oficina, fala tudo sobre sua liberdade artística e sexual. Outra entrevista é com o artista plástico Fernando Carpaneda (que a gente já entrevistou aqui). […]

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