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Crítica: “A Rede Social”

“A Rede Social” foi o nome brasileiro dado ao filme “The Social Network”, que conta a história da criação do Facebook. Por isso, não seria possível um título mais apropriado. Mas a rede citada não é exclusivamente sobre “o” site.

Um nerdzinho de Harvard (interpretado por Jesse Eisenberg), depois de demostrar suas habilidade como hacker para todo o campus, é convidado por dois remadores da faculdade a criar um site, no estilo que era o MySpace na época, mas para uso pessoal e com uma grande diferença: ser parte de uma fraternidade, de um dos grupinhos da faculdade. Só poderia entrar quem fosse convidado. O que acontece é que ele, sempre colocado do lado de fora de empreitadas como essa, se vê no controle da situação. Oras, então para quê fazer algo para os outros? Assim nasceu o site The Facebook, com alguns recursos, exclusivo para estudantes de Harvard e com uma pequena ajuda financeira de seu único amigo no campus – para pagar as despesas de host. Ah, com White Stripes e Trenz Reznor tocando ao fundo.

Atualmente, Mark Zuckerberg, o nerdzinho, tem 26 anos e é conhecido como a pessoa mais nova do mundo a se tornar bilionária – atualmente, estima-se que sejam 7 bilhões de dólares a quantia na sua conta. Por isso, a disputa na justiça, também mostrada no filme, continua até hoje. Afinal, todo mundo quer um pedaço do bolo que ajudou a assar.

Claro que parte do interesse do público no filme é esse, ver quem vai “ganhar”, estudar quem tem razão. Mas não é só sobre isso a história. Apesar de Mark ter tido o trabalho todo, nem o money e nem a ideia seminal vieram de seu bolso ou sua cabeça. E isso importa? Sim e não.

Sim, importa pois talvez ele esteja levando crédito em algo que não fez. Não, pois nenhuma revolução é organizada. Sean Parker, um dos donos do extinto Napster – primeiro programa de compartilhamento de música, inclusive de forma ilegal – reconhece que, como um negócio, acabou sendo um fracasso por causa das batalhas judiciais com gravadoras. Mas o Napster mudou completamente a indústria da música e para sempre. E é uma fala como essa que fascina Zuckerberg, que tem em suas mãos uma rede social que ainda não dava dinheiro, mas lhe trazia uma popularidade nunca sonhada e que tinha o potencial de lucros astronômicos no futuro. Então, além dessa paranóia de quem inventou a coisa, é muito interessante presenciar a criação de um site que mudou a dinâmica do mundo.

Não é exagero. O que acontece no Facebook – ou no Orkut, ou seja lá qual for a rede social que você usa (e pode apostar que, seja lá qual for, ela copiou o Facebook em algo) – é um reflexo da vida real de quem o usa. Existe um sem número de maneiras de manter sua vida privada ali, mas não é sobre isso a ferramenta. Ela é para você dizer ao mundo o que você pensa, quem você é, onde você vai e com quem você anda. O próprio conceito de amizade mudou depois das redes sociais. Mudou de uma maneira profunda e eterna – como o Napster fez com a música.

Tudo pois o nerdzinho não era aceito na festinha dos populares, veja só.

E o filme é sobre isso também. Sobre a nova geração que chega ao poder, a geração que cria um emprego para si ao invés de procurar um. E a mecanicidade eterna dos gêmeos atletas é o contraponto ideal a Zuckerberg, entediado com o que chamam de “as coisas que importam”, com o status quo, com as próprias roupas.  A grande característica da nossa geração é que ela foi criada à base do prazer. Nossos pais tiravam boas notas no colégio pois era a obrigação deles. A gente tentava tirar pois, se passássemos de ano, ganhávamos um presente. Percebe a diferença? O grande coringa do jovem no mercado de trabalho é esse. Ele trabalhará horas à fio se for em algo que lhe premie com dinheiro, com prazer ou com as duas coisas. Como foi observado, o oásis de Zuckerberg é uma casinha com piscina no subúrbio de Los Angeles, com cerveja na geladeira e nada mais que isso.

Millôr Fernandes disse uma vez que ninguém fala mais entusiasticamente de livre-empresa, de leis de mercado e “que vença o melhor” do que a pessoa que herdou tudo do pai. Nossa geração não lidou de verdade com política ou guerras e nosso juízo de valor é outro. Um outro incompreensível aos homens de terno que descem lá de cima e tentam comprar a gente. “Bacana isso que você faz, agora deixa que daqui para frente eu cuido disso”. E aí eles ficam com o lucro e a glória. Não mais. Não mais desde o Facebook.

No final, o longa prova que os tempos mudaram e que, ao contrário do que diz-se, nem todo mito de criação precisa de um diabo. Mas é óbvio que, juntos, esses caras foram deuses. Não se sabe qual será a próxima revolução, de onde virá nem de quem. Mas fica aí o alerta: pode vir de qualquer um, em qualquer lugar.

“A Rede Social”, em vários níveis, mudou minha visão de muitas, muitas coisas. E merece todos os prêmios que ganhou e virá a ganhar. A direção de David Fincher é ótima, o roteiro de Aaron Sorkin (baseado no livro de Ben Mezrich) é muito amarrado e as atuações não deixam a desejar. Foi o filme do ano para mim.

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Gabriel

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8 Respostas

  1. […] às livrarias e aos cinemas com “Bilionários por Acaso”, escrito por Ben Mezrich, e “A Rede Social”, dirigido por David […]

  2. […] do prazer no trabalho, a geração que cria um emprego para si ao invés de procurar um. Fiz um texto todo sobre ele. É o filme do ano para mim. Não é pra ter em DVD e ficar revendo, mas me fez questionar muita […]

  3. […] o moço só produziu música dos outros (“Hard Candy”, por exemplo) e fez uns filmes (“A Rede Social”, por exemplo). […]

  4. […] “Toy Story 3″ 2. “A Rede Social” 3. “Reino Animal” 4. “I am Love” 5. “Enrolados” 6. […]

  5. […] ator Jesse Eisenberg, que interpretou o criador do Facebook no filme “A Rede Social” apresentou o “Saturday Night Live” no último sábado. Quando citou o longa, O ator […]

  6. […] e o Oscar? Complicado dizer. O filme é bom, mas “A Rede Social” tem um tema mais atual e é sobre um new american way. Um inglês gago não roubará estatuetas dos […]

  7. […] A aparição da vez é Aaron Sorkin, roteirista indicado ao Oscar desse ano por seu trabalho em “A Rede Social”. Ele, dono também do projeto “The West Wing”, da própria NBC, vai aparecer ao lado da […]

  8. […] Mas ao contrário do que foi dito antes, não é James Cameron quem vai dirigir o novo longa – talvez em 3D. O produtor Scott Rudin quer David Fincher atrás das câmeras – o cara também pro trás, por exemplo, de “A Rede Social”. […]

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